Lei de Incentivo à Cultura
Revista Bravo

Cinthia Kunifas

Maio 2003

PELE, PLÁSTICO

Fundada em 1995 pelo carioca Fernando Nunes em Campo Mourão, no interior do Paraná, a Verve Cia. de Dança é hoje uma das mais destacadas e ousadas no panorama da dança contemporânea no país. Exemplo disso é sua coreografia mais recente, (C2H4)n – Plástico, a quarta e a maior já encenada pela companhia, que, depois de uma temporada bem-sucedida no ano passado no sul do país, será apresentada neste mês no Rio de Janeiro. Usando mídias eletrônicas – como a projeção de imagens que vão desde documentários a fotografias – a peça se propõe a discutir as tendências de um mundo em que o ser humano se defronta, numa relação ambígua, com uma tecnologia cada vez mais sofisticada.

Uma das maneiras de demonstrar isso cenicamente fica por conta das múltiplas perspectivas e da utilização do plástico, que é mostrado tanto em imagens microscópicas quanto em embalagens que envolvem os corpos. Além disso, microcâmeras fixadas nos bailarinos criam projeções em tempo real e invertem os sinais, mostrando imagens do ponto de vista dos que estão no palco e não na platéia. Em outros momentos, mostram aquilo que esta fora de cena, quando os bailarinos vão aos bastidores, dando uma visão muito mais dinâmica do espetáculo, além de provocar no público a sensação de tomar parte em algo escondido. Assim, as referências se misturam, e a visão do corpo se confunde com a da tecnologia.

A idéia de usar o plástico como tema surgiu em um ensaio, quando Fernando Nunes se deu conta de que o copo plástico que tinha nas mãos duraria muito mais do que o corpo de seus bailarinos. Isso o levou a uma analogia entre tempo e matéria, relacionando esse “polímero”com a evolução do homem. Nunes toma o plástico como metáfora do pensamento, pois ele está contido nas conexões, Não apenas da matéria sintética, mas, seguindo essa analogia, nas conexões do nosso cérebro, refletindo a ambição humana de moldar o mundo, de se perpetuar. “Teremos de nos acostumar com as mudanças que ocorrerão na biologia durante esse século: com a idéia de um homem moldável discutindo seu destino genético”.

Outro ponto a ser destacado em (C2H4) n – Plástico é a trilha sonora, composta pelo músico inglês Chris Vine. Executada em um sistema de cinco canais de som – 5:1 Surround – agrega ao conjunto corpo-imagem uma sensação de fluidez e continuidade que parece colaborar para a idéia de que as mudanças tecnológicas não interromperão o fluxo de vida, apenas o transformarão.

Fotógrafo, artista plástico, designer, Fernando Nunes iniciou-se na dança em 1988, como diretor artístico, coreógrafo e roteirista no Grupo Mobilis, de Niterói, no Rio de Janeiro. Nessa experiência, que durou cinco anos, entendeu que os bailarinos desejavam falar de assuntos que seus corpos não conseguiam corresponder, pois pediam outros movimentos que não aqueles codificados por meio de treinamento cotidiano. Daí a necessidade de explorar novas linguagens.

Foi com base nesse conceito que Nunes fundou a Verve Cia. de Dança. Sem se incomodar com os limites estabelecidos entre as diversas áreas artísticas, nem com o status oferecido pelas capitais, escolheu como núcleo de produção e criação a interiorana Campo Mourão.

Numa palestra ministrada recentemente em Curitiba, no encontro de aristas contemporâneos de dança Conexão Sul, Nunes afirmou que a dança é uma maneira de perceber o mundo. “É possível ver dança com os pássaros, com máquinas se movendo. Vai depender da maneira como se quer enxergá-la”.Para melhor entender essa afirmação, basta saber que a obra de Fernando Nunes investe como (C2H4)n – Plástico demonstra, naquilo que está fora de seu corpo. Como se fosse uma pintura, ou desenho, ele usa o corpo do bailarino, as imagens, as cores e as texturas, bem como os recursos tecnológicos disponíveis para compor a tela viva de um espetáculo.

A estréia da Verve aconteceu em 1997 com Terral, peça que, marcada pelo risco de colisões entre os bailarinos que improvisavam seus movimentos em cena, já mostrava a ousadia de seu projeto. Em 1999 foi a vez de Truveja Pra Nóis Chorá, uma visão lírica e bem-humorada do cotidiano do interior do Brasil. Foi com esse espetáculo que a companhia ganhou projeção nacional, recebendo o Prêmio Estímulo da Associação Paulista de Críticos de Arte, o que possibilitou que ela fizesse turnês pelo Brasil, pela Argentina e pela Colômbia. Em 2001 aparece Gambiarra, uma leitura das conseqüências da intersecção das três influências básicas responsáveis pela formação do povo brasileiro – o índio, o português e o africano. Em 2002, a companhia produziu para o 8º Festival Ibero-Americano de Teatro de Bogotá Um Pouco de Tudo ao Mesmo Tempo, uma colagem de peças que procura fórmulas para as apresentações de espetáculos multimídia em espaços alternativos, fora dos teatros. Nela está reunida toda a diversidade de linguagens utilizadas pela Verve nos seus sete anos de existência, além de apresentar sinais de novos caminhos que serão trilhados.