Lei de Incentivo à Cultura
Helena Katz

O Estado de São Paulo - 03/12/1999

Verve combina sutileza com competência

Roteiro de ‘Truveja Pra Nóis Chora” é uma declaração de amor ao interior do Brasil.

Há uma companhia de dança que merece ser descoberta. A boa surpresa se chama Verve, vem de Campo Mourão, no interior do Paraná, e esta se apresentando ate domingo na sala Jardel Filho do Centro Cultural São Paulo.

Truveja Pra Nóis Chorá, seu espetáculo, e daqueles que alimenta a certeza de que se faz, sim, dança de muita qualidade fora dos grandes centros.

Em primeiro lugar, o que se destaca e a competência da direção de Fernando Nunes. Trata-se de um profissional capaz não apenas de preservar os traços singulares de todos os interpretes como, sobretudo, de levar cada um deles a explorar o que tem de melhor. O resultado e uma afinação de diversidade que mantém o olho do espectador interessado durante todo o transcorrer do espetáculo.

Do elenco emana um tipo de atuação atraente: Seu envolvimento com o material que apresenta parece ser da natureza da entrega e do compartilhar. Ele exala um tipo de compromisso entre si e com a obra temperado pela responsabilidade e pelo prazer.

O resultado torna-se cativante.

Quanto ao roteiro, realiza quase uma declaração amorosa ao universo do interior do Brasil. A linha que costura todas as situações se chama sutileza e produz uma obra que escapa ao lugar comum das tipologias grosseiras. Com o auxilio de uma trilha sonora que já deixa evidente o aconchego do regional ao contemporâneo, Truveja Pra Nóis Chorá da um tratamento modelar a questão do traço cultural. Mesmo mantendo um compromisso com aquilo que estão dizendo, os textos também funcionam como música . Esse e o jogo que conta nas misturas de influências das linguagens presentes nesta montagem (cinema mudo, quadrinhos, etc). Tudo flui na direção de evitar qualquer ilustração grosseira.

A obra constrói-se de uma maneira que a distingue. O gestual e os movimentos são tecidos uma forma em que o compromisso de dançar o que e nosso ou o desejo de homenagear as nossas raízes se instaura como uma moldura. Dentro dela, não são os personagens prontos, mas sim aquilo que os produz que e desenvolvido. Nesse movimento, ao abandonar a aparência fácil, Truveja Pra Nóis Chorá passa a tratar poeticamente o trivial do cotidiano. O que mais importa, em termos de construção cênica, talvez seja a capacidade da Verve de entender a dança como um campo de produção de conhecimento. Quer se comunicar, mas não abre mão de acompanhar os experimentos do seu tempo.

Longe do previsível – A própria cenografia, montada apenas com elementos convencionais (corda, cruz, banco, arvore, etc.), escapa ao previsível e usa muito bem seu espaço. A iluminação ajuda a compor um ambiente em que o interior deixa de ser tão somente um lugar geográfico para surgir como um lugar psicológico. A penumbra sugere que observamos o que se passa tanto de fora, no escuro da natureza, quanto de perto, mas a luz de um lampião. E exatamente esse tipo de sofisticação que destaca a companhia. A atuação da Verve Companhia de Dança rompe com a expectativa do que seja a dança de quem vive isolado numa cidade pequena, distante do circuito por onde a informação circula. Coisas que só o talento consegue produzir.